| Professores com depressão em encontro sobre a doença |
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| 04-Jul-2004 | |||||
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Variações de humor, à mistura com crises de depressão e de euforia. são estas as características do chamado distúrbio bipolar. Cerca de duas centenas dos sócios da Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares (Adeb) são professores e esta é também a classe profissional mais representada entre os dois mil inscritos na organização. Por essa razão, a Adeb promove hoje o primeiro encontro de professores, em Lisboa. Pretende-se fazer a caracterização da doença e do meio em que os professores desenvolvem a sua actividade - a escola - e debater a ansiedade na profissão. Com este encontro, a associação procura "alertar e ajudar a superar um problema que constitui um dos grandes focos de mal-estar na profissão docente", explica Delfim Oliveira, presidente da Adeb. O distúrbio bipolar leva a que os doentes tenham variações entre a depressão e a euforia. Trata-se de uma doença crónica, embora não seja incapacitante, explica o presidente da Adeb. Contudo, a maioria dos doentes está medicada, acrescenta. O distúrbio bipolar tem importantes repercussões nas sensações, emoções, ideias e comportamento da pessoa, implicando a perda da saúde geral e a capacidade de relacionamento, informa a associação numa nota à imprensa. Quanto aos doentes unipolares, são afectados apenas pela euforia ou pela depressão. Delfim Oliveira diz que pelo menos metade da população tem, uma vez na vida, uma depressão. Mais mulheres do que homens Na origem da doença estão factores genéticos e biológicos. No entanto, o tipo de personalidade e o ritmo de vida que a pessoa enfrenta também desempenham um papel de destaque no desencadeamento das crises deste tipo de distúrbios - como é o caso da vida dos professores, salienta Delfim Oliveira. A profissão docente é uma das mais desgastantes e stressantes, por isso os professores são uma das classes que mais sofrem de doenças unipolares e bipolares. Os docentes trabalham em escolas situadas em zonas consideradas de risco, sem qualquer apoio, onde são "professores e pais dos alunos", descreve o presidente da Adeb. Dez por cento dos 2100 sócios da Adeb são professores. A sua maioria são mulheres, porque "são as que se cuidam melhor e procuram ajuda", explica Delfim Oliveira. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a doença bipolar afecta quase 1,6 por cento da população mundial e é geralmente diagnosticada na fase jovem. É considerada a sexta causa de incapacidade humana. Uma "paralisia progressiva, a nível físico e intelectual" Lucília Lourenço, 54 anos, professora no ensino superior, tem a certeza de que não adoeceu por causa da profissão. "Eu sempre fui assim. Toda a minha vida tive uma grande resistência física, dormia poucas horas... Os outros ficavam espantados por conseguir fazer 30 mil coisas ao mesmo tempo". A professora da Escola Superior de Educação de Lisboa tinha um "rendimento muito grande", "incrível", até que na década de 90 começou a sofrer os "primeiros baixos", ou seja, falta de energia, de rendimento intelectual. Chegou a ficar 14 meses de cama. "não era cansaço, mas falta de energia anímica, uma situação difícil de descrever", conta. Lucília Lourenço sofre de doença bipolar; o seu estado varia entre a hipomania, quando está enérgica, com prazer de viver e "a 200 à hora", e a depressão. Como descreve a professora: entre os altos e os baixos. Quando está em baixo (Lucília garante que nunca esteve deprimida), a docente perde a capacidade de decisão. "Digo que é uma paralisia progressiva, a nível físico e intelectual", continua. Mas, quando está nos altos, Lucília faz frente aos colegas e não consegue estar calada. "Por vezes, a minha realidade é uma afronta aos outros colegas porque eu trabalho tanto, tanto, tanto", explica. A profissão, confessa, é stressante por causa dos colegas, dos alunos, de épocas do ano em que há mais trabalho. Tudo isso pode ajudar à manifestação da doença e também facilitar recaídas. "Claro que tive crises provocadas pela escola, pelo trabalho. As instituições têm grandes problemas. Costumo dizer que em vez de se discutir educação se discute o poder. Mas gosto imenso de dar aulas", conclui a docente há 26 anos. in Público de 04/06/2004
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